Acho que só os americanos falam “bastardo”. E isso nas séries de tv aberta. Na HBO, os caras podem falar “mutherfucker”. Bastardo, fora ser um xingamento, significa também um filho fora do casamento. Se você não conhece um bastardo, prazer.
Meu pai já era casado quando conheceu minha mãe, aos 19 anos. Eu nasci e ele arrumou uma casa pra gente. Ele não morava lá, mas eu o via todo dia. Passava as noites lá só. Minha mãe me dava a desculpa que ele não dormia com a gente porque tinha que cuidar da minha avó – que eu não conhecia, aliás. Quando ele, na verdade, ia ficar com sua família, os Gaglianone. Nome bacana que eu nunca pude usar, porque não era registrado. Tinha essa também.
Os fins de semana ele passava na minha casa. Não sei que desculpa dava para os Gaglianone, mas eu não entendia como de repente a mãe dele não precisava de cuidados médicos. Logo saquei que havia uma parada errada, mas continuei repetindo a mentira, especialmente para os amiguinhos de escola, por vergonha – e ignorância da real situação.
E assim fomos levando até 98. A relação do meu pai e da minha mãe era razoável. Eu e ele nos dávamos bem também, até. Ele ficava meio puto quando eu tirava sarro da cara dele – como da vez que eu fingi não entender a conversa dele sobre “quem joga sinuca, anda quilômetros” – , mas fora isso, sempre fomos felizes. Razoavelmente.
Em 99, eu e minha mãe já estávamos sozinhos. Eles terminaram e meu pai deve ter achado que com isso, morriam seus compromissos comigo. Ele estava quebrado, cheio de merda. Era viciado em corrida de cavalo e os negócios não iam bem. Não nos procurou mais. Minha mãe segurou a onda sozinha e conseguiu manter a casa – que ela teve que quitar – e a vida funcionando. Em 2001, fomos morar num apê legal, numa área mais segura. Foi nessa época também que me incomodou não ter o nome do meu pai no meu RG, porque sempre que alguém via meu documento, dava uma vergonha de não ser registrado. Daí fiz algo do qual me arrependo: movi uma ação judicial para pedir a paternidade dele. Não era pela grana, era só pela vergonha. Depois virou pela grana, porque a recusa dele em me registrar foi alimentando um ódio em mim que me fez querer tomar qualquer coisa dele. Queria mandar ele para a cadeia, se ele não tivesse grana para pagar.
Foi aí que eu oficializei o ódio. Foi quando comecei a fazer piadas de “meu pai morreu disso”, aonde sempre que eu queria constranger um estranho que me amolasse, dizia que meu pai morria de algo relacionado à amolação do estranho.
Mas nunca gostei que fizessem piada sobre meu pai, porque o pai era meu e só eu podia fazer as piadas, senão não era legal. É lógico que havia um sentimento. Gostava de zombar sobre ele porque fazia eu me sentir melhor.
Até hoje tivemos 4 encontros:
Em 2004 ele apareceu na porta do meu colégio. Fugi dele porque estava ouvindo as histórias mais bizarras sobre o cara. Ele estava pulando de religião de semana em semana, tava com um aspecto bem bizarro, uns 40 kg mais magro, e eu basicamente fiquei com medo dele querer me matar para sumir com o processo na justiça. Que sensação agradável!
Em 200…6! Isso. 2006 meu avô insistiu para que eu conversasse com meu pai e topei um encontro de 5 minutos. O que seria um encontro onde meu pai ofereceria ajuda no pagamento da minha faculdade virou simplesmente a oportunidade de chorar bastante sobre sua vida e deixar bem claro que ia evitar o quanto pudesse me registrar. Com essas palavras.
Em 2007 nos encontramos novamente para fazer o Ratinho. Ficamos na mesma sala para fazer um exame de DNA. O cara tava tão pilhado que só dava pena. Se essa briga na justiça não tivesse consumido tanto tempo da minha mãe (ela era minha responsável legal nos primeiros anos do processo, já que eu era menor. Era como se ela tivesse movendo o processo) e eu não tivesse tão consumido pela frieza, largava o processo aí. Quando ele foi se despedir da equipe do exame, mandou “MUITA LUZ PARA TODOS VOCÊS.” Que vergonha. Não quero o nome desse cara em nada que tivesse a ver comigo! Já basta o nome dele ser Ronaldo, tão próximo do meu.
Em 2008 deveríamos nos encontrar perante à Justiça, já que oficializou-se a paternidade pelo DNA. Mas ele faltou ao encontro, que foi remarcado para 2009. Ele estava lá. Chorava sobre a própria vida e mentia sobre ter cuidado de mim até meus 15 anos. Uma loucura. Eu fiquei muito puto. Sabe, uma vez a mãe do Rodolfo me disse que meu pai não era mau, era só fraco, covarde. Às vezes considerava isso, mas nesse dia ficou claro que o cara não prestava. Na Justiça, peguei uma pensão miserável – que nunca entrou, aliás -, alguns documentos que me garantiam o nome dele, e ouvi os procedimentos que deveria fazer para acertar tudo, aonde tinha que levar papéis e o que tinha que assinar. Não fiz nada disso e no dia seguinte continuei minha vida e nunca mais falei com ele.
Agora a vizinha vem me falar que ele morreu. Não me abalou, eu sabia que não ia me abalar. É LÓGICO que eu sinto um pouco de pena de várias paradas, tipo eu saber que agora já era, que não vai rolar perdão, que não vamos mais a nenhum jogo do Botafogo (o último que fomos, perdermos de 5×3 pro Palmeiras em 97), mas isso é tão pequeno, mas tão pequeno perto do alívio de não ter mais que ficar esperando essas coisas, que eu me sinto até bem. O alívio é monstruoso. Não preciso me preocupar mais com a possibilidade dele aparecer amanhã me pedindo favor porque “viu que eu estou bem”, não preciso ouvir as histórias lamentáveis de como eu destruí a vida dele quando os Gaglianone ficaram sabendo da minha existência, e tantas outras bobagens.
Só escrevi isso para fechar a história e não ter que ficar me explicando para TODO MUNDO por que eu não quero falar sobre meu pai. Tive que falar mais uma vez sobre ele, mas para ser a última.